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Orientação Vocacional
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A DIFÍCIL HORA DA ESCOLHA
Optar por um curso é mais que escolher uma carreira: é esboçar um projeto de vida.


· O sr. é bastante crítico aos testes vocacionais. Eles não são úteis para ajudar o jovem na escolha de sua profissão?

Silvio Bock - Os testes pretendem mais que isso: em geral se pensa que através de perguntas e respostas pode-se chegar a definir a vocação de uma pessoa. Estou certo de que os testes são um instrumento incapaz de medir aquilo a que se propõem. Primeiro porque partem do pressuposto de que as profissões e as pessoas não mudam. Segundo porque pretendem que deve haver uma harmonia perfeita entre pessoas e profissão - e ambas são dinâmicas, mutáveis.

· Mas escolher uma profissão não significa, antes de mais nada, descobrir a própria vocação?

Silvio Bock -Também sou cauteloso quanto a essa história de vocação. Na verdade o conceito de vocação sempre foi utilizado como justificador e legitimador de desigualdades sociais: o negro como trabalhador braçal, mulher como refém da maternidade; isso no fundo é o mesmo que dizer que umas pessoas nascem para mandar e outras para a subserviência. É a tal da vocação genética, que vem a ser o determinismo biológico. Eu costumo dizer que quem tem vocação biológica são os animais. Isto é, uma abelha já nasce absolutamente determinada para se relacionar com o mundo de uma forma específica, e ela sempre o fará da mesma maneira desde que não aconteçam mudanças radicais na natureza. Já o ser humano não nasce com nenhuma determinação biológica nesse sentido, e portanto é livre para ser o que quiser.

· O que significa, então, escolher um curso ou uma profissão?

Silvio Bock -Antes de mais nada, escolher uma profissão é esboçar um projeto de vida. Não se trata apenas de se perguntar: faço Química ou faço Física? A pergunta mais apropriada é: que projeto de vida eu desejo para mim? Estabelecer e fixar esse projeto é mais que uma escolha, pois implica principalmente renunciar a várias outras escolhas possíveis. Uma pessoa pode amar várias profissões em perspectiva e ter de escolher uma. Será preciso decidir e essa decisão é um ato de coragem que significará perda. Às vezes é máis difícil admitir as perdas da renúncia que assumir o ganho da escolha em si.

· Que fatores devem pesar na hora da escolha?

Silvio Bock -Em primeiro lugar, ninguém deve esperar que a escolha se manifeste de uma forma mágica, como uma iluminação que vem do céu. Encarar a escolha significa, antes de mais nada, encarar o conflito que se trava dentro de nós. É uma coisa às vezes dolorosa, cansativa e angustiante, mas que deve ser enfrentada. O jovem deve buscar informações, colocar o seu conflito para fora. Enfim, sistematizar o que está buscando. Há maneiras de se informar sobre as profissões existentes, de saber o que pensam os profissionais de cada área e, principalmente, o que pensa o próprio interessado a respeito. Ele se deve colocar a questão do prazer e da realização pessoal, do mercado e da contribuição social. e não deve sentir vergonha de ter dúvidas. É um engodo a concepção de que se deve ter em mente desde pequeno o que se vai ser quando crescer. No fundo, por ter todos os caminhos ainda abertos à sua frente, o indeciso tem todas as possibilidades de fazer uma boa escolha.

· Nesse processo de escolha, ouvir as outras pessoas é uma boa?

Silvio Bock -Naturalmente. Claro que se alguém disser "você deve", desconfie. E salutar conversar com os pais, com os mestres e com as pessoas mais experientes que trabalham em ocupações distintas. Acho mesmo que as escolas deveriam fazer um trabalho sério de orientação profissional, especialmente na de segundo grau, mas vejo que a maioria delas continua omissa quanto a isso. Certamente os jovens podem chegar a escolhas adequadas sem o trabalho de um orientador, mas com a sua ajuda eles organizariam melhor sua reflexão.

· Até que ponto a interferência dos pais na escolha profissional dos filhos é benéfica?

Silvio Bock -No próprio processo de vida do jovem os pais interferem desde o começo. Isso é inevitável. No passado o pai mapeava o espectro social e distribuía papéis ocupacionais para os filhos: você var ser advogado, você médico, você engenheiro ou bispo. Hoje a diferença é que os pais já não interferem autoritariamente. O problema é às vezes o inverso: por excesso de liberalismo, muitos pais acabam se omitindo. Por isso é importante que o jovem tome a iniciativa de falar a respeito com os pais, dialogar com eles conscientemente. Deve-se conhecer as expectativas deles a seu respeito, por que não? O diálogo traz sempre um ganho interessante. Agora, a decisão final tem de ser sua. É frequente ouvir hoje em dia: "Eu não quero decepcionar meus pais, por isso vou fazer tal curso". É um discurso oposto ao dos ano 60 e 70, quando o costume era dizer: "Meus pais que se danem, não tenho culpa de ter sido posto no mundo". Ambas as posições são extremadas e é possível que a razão esteja no meio.

· A maioria dos jovens geralmente tem dúvidas entre cursos de áreas afins (por exemplo: Física ou Engenharia Elétrica), mas há quem hesite entre cursos muito diferentes (Química ou Letras). Isso é absurdo?

Silvio Bock -De modo algum. As profissões são antagônicas apenas na aparência. A lógica da conveniência diz: você está absolutamente confuso, meu caro. Mas a realidade responde: isso é absolutamente possível. Por que é que a escolha deve ser somente entre sorvete de morango e sorvete de abacaxi? Pode ser que você queira escolher entre sorvete e hambúguer! Muitas pessoas são realmente capazes de demonstrar aptidões para atividades as mais distintas. É ainda uma questão de escolher.

· Na hora da escolha, o jovem deve apostar na carreira que mais se aproxima das matérias em que ele se destaca?

Silvio Bock -Pode ser útil como um primeiro indicador, mas não é um critério absoluto. O fato de não se ir bem numa disciplina não significa que se deva evitá-la a todo custo. Na verdade a correlação entre matéria escolar e profissão tem menos a ver do que geralmente se pensa. Gostar tem a ver é com a experiência concreta. Odeia-se hoje História e amanhã um determinado professor poderá torná-la um matéria fascinante. As pessoas simplesmente têm potencialidades insuspeitadas.

· O potencial econômico da uma profissão deve pesar na balança no momento da escolha?

Silvio Bock -As pessoas costumam colocar a questão desta forma: eu quero uma profissão que me satisfaça intimamente ou que me realize financeiramente? A colocação é falsa porque pressupõe que o que satisfaz não realiza. De um modo geral a idéia de priorizar o mercado merece lá as suas reservas. Primeiro porque a profissão pode vir a não "realizar" o profissonal na medida em que ele passa a se sentir descontente com aquilo que não o "satisfaz". E segundo porque o mercado é dinâmico e as situações se modificam com o tempo: profissões promissoras podem não o ser amanhã e vice-versa. Avaliar conscientemente o mercado é válido e pode ser importante como um elemento a mais na escolha profissional, mas não é o único e nem o primeiro.

· Que fazer em relação às carreiras que se foi obrigado a descartar?

Silvio Bock -As profissões descartadas, por serem as mais próximas da escolha principal, devem ser colocadas como segundo e terceira opções. Acontece que, de um modo geral, o problema para a maioria dos vestibulandos não é propriamente escolher a profissão, mas passar no vestibular. Passando, seja lá no que for, eles se sentem compensados. Penso que, nesse aspecto, o jovem não deve fazer concessões. Por exemplo, em hipótese alguma ele deve escolher um curso menos concorrido apenas porque as chances de entrar são maiores. Nem tampouco buscar o mais concorrido por imaginar que assim ele estará valorizando a sua escolha. Nada disso. A escolha deve ser consciente, mas também sensata.

UNICAMP 93 (REVISTA DO VESTIBULANDO)


 
Sílvio Duarte Bock
    Pedagogo pela PUC-SP. Coordenou o Programa de Orientação Vocacional da Fundação Carlos Chagas e foi orientador educacional do Colégio Equipe.
É diretor do NACE - Orientação Vocacional e Redação, que atendeu mais de 2000 alunos.
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